Parece ser uma tendência crescente. Mulheres que optam por ser mães, constituindo famílias monoparentais, através de procriação
medicamente assistida, com recurso a dador de esperma. Ou por adopção. Ou recorrendo a um dador conhecido.As mulheres que tomam esta decisão têm em média 38 anos quando começam a pensar na hipótese de engravidar por Procriação Medicamente
Assistida (PMA) e entram no processo dois anos depois. As razões que as levam a tomar esta opção prendem-se com a consciência
de o tempo que corre contra elas, fazendo com que a sua fertilidade seja cada vez mais limitada.
Este retrato de uma
nova realidade social é feito por um estudo realizado na Universidade de Cambridge, Reino Unido. Outro dado avançado tem a
ver com o facto de muitas das mães que tomam tal decisão sentirem dúvidas sobre se esta será justa para a criança que vai
nascer ou se será um acto de egoísmo.
A realidade no Reino Unido é, de resto, semelhante à que se verifica noutros países.
Em Espanha, onde as mulheres solteiras podem recorrer a PMA sozinhas desde 1988, a tendência parece ter chegado para ficar.
As clínicas de PMA têm registado, de ano para ano, um aumento significativo do número de mulheres que procuram os seus serviços
para engravidarem sem parceiro.
Em Portugal... Ao contrário do que acontece em Espanha, a inseminação artificial
com dador anónimo não é permitida a mulheres solteiras ou que não tenham um companheiro com quem vivam em união de facto.
Mas Espanha é já aqui ao lado e as clínicas do país vizinho têm clientes portuguesas que não conseguem concretizar no nosso
país o sonho da maternidade.
Por cá, não há estudos sobre mães sozinhas por opção, mas sabe-se que as famílias monoparentais
são maioritariamente constituídas por mãe e filhos, que existe uma tendência crescente para haver famílias monoparentais em
que o pai ou a mãe são pessoas solteiras e que o grau de escolaridade tem vindo a subir ao longo dos anos. A taxa de emprego
nas famílias monoparentais é também bastante elevada. A tendência é que as famílias monoparentais estão a deixar de ser associadas
maioritariamente a situações sociais e económicas desfavorecidas. São indicadores que parecem mostrar novas realidades em
que não se encaixa a antiga ideia de «mãe solteira». E que permitem pensar que, de facto, também em Portugal, a maternidade
independente, por opção, pode estar a tornar-se cada vez mais frequente.
Associação americana
de mães solteiras por opção tem 30 anos
A socióloga americana Rosanna Hertz estudou o fenómeno e escreveu o livro
Single by Chance, Mothers by Choice (Solteiras por Acaso, Mães por Opção). Da sua pesquisa, concluiu que estas mulheres
foram empurradas para esta opção por sentirem que era a última hipótese de realizarem o sonho da maternidade e não por estarem
convictas de que este é o modelo ideal. Não foi portanto uma primeira opção, mas foi a opção possível. Muitas continuam a
acreditar que hão-de encontrar um homem que pode vir a fazer parte da família. Simplesmente acabam por decidir ser mães antes
de o encontrarem, pois se continuarem à espera provavelmente nunca serão mães biológicas. Mas a verdade é que a maioria acaba
por continuar sem companheiro, porque a maternidade absorve-lhes a disponibilidade para encontrarem e conhecerem novas pessoas.
Nos EUA existe uma associação - Single Mothers by Choice - que desde 1981 reúne e dá apoio a mulheres que tomam
esta decisão ou estão a pensar tomá-la. A associação cresceu nos EUA, mas também já está presente no Canadá e em alguns países
da Europa. Mais de 13 mil mães solteiras por opção já se tornaram sócias. Entre 14 e 16 de Outubro a associação celebrará
os 30 anos de existência com uma novidade: as crianças filhas das primeiras associadas, agora adultas, falarão sobre a experiência
de crescer numa família sem pai por opção da mãe. Estima-se que nos EUA, cerca de 20 por cento dos nascimentos sejam de mães
solteiras por opção. Além destas, há ainda cerca de 13 mil crianças adoptadas todos os anos por mães solteiras, através dos
serviços de adopção estatais e muitas mais adoptadas por outras vias e não contabilizadas.