Maternidade

Recolha de sangue do cordão pode pôr em risco mães e bebés

A atenção das parteiras e obstetras, logo após o parto, deve estar exclusivamente centrada na mãe e no bebé e não na recolha de uma amostra de sangue. O alerta é dos obstetras e parteiras britânicos.

A recolha de sangue do cordão umbilical logo após o nascimento (para guardar as células estaminais e poder usá-las mais tarde em caso de doença grave) está a pôr em risco a saúde das mães e dos bebés. O alerta é feito pelos obstetras e parteiras britânicos através das respectivas associações profissionais (Royal College of Midwives and the Royal College e Obstetricians and Gynaecologists).
O procedimento implica a recolha de uma amostra de sangue do cordão e o seu acondicionamento num momento de risco em que bebé e mãe devem receber todas as atenções da equipa que está a acompanhá-los. Garantir que o bebé está a respirar adequadamente ou que a mãe não está a sangrar em demasia devem ser as prioridades dos profissionais de saúde e não retirar uma amostra de sangue do cordão, segundo o alerta dos obstetras e parteiras britânicos. Não deve ser pedido às parteiras nem aos médicos que façam esse trabalho de recolha, mas sim a técnicos especializados, sob pena de se estar a pôr em risco a saúde e bem-estar da mãe e do bebé.
Daniel Pereira da Silva, obstetra e presidente da secção de Obstetrícia da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, compreende o alerta dos colegas britânicos. Mas, ao mesmo tempo, desvaloriza o risco que a recolha de sangue do cordão pode trazer.
«Faz sentido o alerta, pois de facto é sempre o obstetra ou a enfermeira-parteira que fazem a recolha e nunca devemos desviar a atenção do essencial», afirma. «Mas não tenho conhecimento de em Portugal ter alguma vez existido algum incidente ou situação de risco acrescido devido à recolha de sangue do cordão», sublinha.Na opinião deste especialista, os profissionais de saúde têm de saber, e sabem, avaliar e distinguir as situações: «Se o parto está a decorrer com toda a normalidade, não há razão para não fazer a recolha. Se surgem problemas ou situações mais complicadas, em que é preciso dar assistência à mãe ou ao bebé, a recolha não se faz», explica.

Os riscos da laqueação precoce do cordão
Mas para além do risco imediato ¿ as tais situações de insuficiência respiratória do bebé ou hemorragia da mãe - é sublinhado no alerta que fazem os especialistas britânicos que ao laquear e cortar o cordão imediatamente após o nascimento, o bebé é privado de uma quantidade de sangue significativa e importante pois contém oxigénio e nutrientes.
Este aspecto é, de resto, aquele que devia merecer maior atenção e reflexão por parte dos pais e dos profissionais de saúde, na opinião de Lúcia Leite, enfermeira obstetra que lidera a campanha «Pelo direito ao Parto Normal»: «A colheita de sangue do cordão implica uma laqueação precoce do cordão e os pais, tal como muitos profissionais, não têm consciência de que isso tem implicações na adaptação do bebé à vida extra-uterina», afirma.
«Só é valorizado o risco de vida, mas há outros aspectos que não sendo tão graves são importantes: se o bebé continua a receber o sangue da mãe através do cordão durante os primeiros minutos após o nascimento, pode fazer-se tranquilamente o contacto pele com pele que é tão importante e o bebé regulariza gradualmente a sua respiração. É um período fundamental e isso pode fazer a diferença entre um Índice de Apgar muito bom ou um Índice de Apgar que inspira algum cuidado», explica a especialista. «A múltipla oferta deste tipo de serviços de recolha e criopreservação das células estaminais e o marketing das empresas que é muito forte fazem com que os pais adiram a este processo, sem fazerem grande reflexão sobre as implicações para o bebé.
Lúcia Leite afirma que existe a indicação, por parte das empresas de criopreservação, para que a recolha seja feita o mais cedo possível após o parto. Claro que isto pode desviar a atenção de aspectos importantes e quebra-se um momento fundamental, pois se a laqueação é precoce, o bebé será levado logo para receber oxigénio. Se o cordão não for laqueado de imediato não existe essa pressa e o bebé poderá fazer o contacto com a mãe e ter um Apgar mais elevado.
Para esta especialista, tal como para o obstetra Daniel Pereira da Silva, a prioridade tem de ser dada ao bebé e à mãe e já lhe aconteceu protelar a recolha por considerar que é benéfico para o bebé. «Acabo sempre por conseguir fazê-la, mas nem sempre será nas melhores condições, e não sei se terá quantidade suficiente de células estaminais», acrescenta. Apesar de nunca lhe ter acontecido, tem conhecimento de um caso em que os pais processaram a enfermeira obstetra que acompanhou o nascimento do filho, por não ter feito a recolha de sangue do cordão.
Numa altura em que, estima Lúcia Leite, perto de metade dos pais optam por fazer a criopreservação, era importante que «tomassem consciência de que esta recolha é um favor que lhes fazemos. A nossa obrigação profissional é assegurar a saúde e bem-estar da mãe e do bebé e é essa tem de ser a nossa prioridade».
Importante também é «que sejam informados e reflictam sobre o impacto que a laqueação precoce do cordão pode ter», remata.

Sabia que...
- Existem recomendações para que os bebés com menos vitalidade sejam reanimados ainda ligados à mãe, pois dessa forma será mais fácil a sua recuperação?
- O sangue que o recém-nascido recebe através do cordão, após o nascimento, além de oxigénio, tão importante nesses primeiros minutos de vida, dá-lhe uma reserva de ferro para os primeiros meses de vida. Há muitos bebés que têm de tomar suplementos de ferro porque não o receberam.